Por: Débora Gomes (UFPE, Pedagogia, 5º período)
Natacha Pedroza (UFPE, Pedagogia, 5º período)
Escola e Variação Linguística
A escola figura como uma importante instituição para a formação do ser humano e sua vida em sociedade. É nela que as crianças vivenciam suas primeiras experiências com diferentes objetos de conhecimento, culturas e regras fora de seu contexto familiar. Nesse processo de ampliação de conhecimentos e vivências sociais, tem-se a diversidade como uma característica intrínseca, demonstrada e percebida naturalmente nas relações sociais, desde as distintas formas de se expressar e de se comunicar.
No contexto escolar, pelo ensino sistematizado da Língua Portuguesa, o(a) aluno(a) pode perceber, com cada vez mais evidência, as diferenças existentes entre a língua escrita e a falada e suas variedades. Isso porque a língua é um sistema vivo (LIMA, 2012). Com as práticas sociais do uso da língua, as alterações podem ocorrem de acordo com o contexto histórico e cultural, o lugar, a faixa etária, a classe social dos indivíduos, entre outros fatores. A variação linguística reflete a riqueza cultural da vida em sociedade, além de estar relacionada com as características identitárias dos grupos sociais.
Dessa forma, é importante que você, professor(a), leve os(as) alunos(as) à compreensão da normalidade desse fenômeno linguístico, ao reconhecimento e à valorização das diferenças na língua portuguesa, sobretudo, a falada. Para que, assim, seja possível combater os preconceitos direcionados às variedades orais, que menosprezam e excluem indivíduos e grupos sociais a partir da linguagem.
Variação Linguística na Base Nacional Comum Curricular
As variações linguísticas estão presentes nas diversas esferas da vida dos estudantes. Assim, cada criança chega à escola com uma “bagagem” linguística própria, cuja singularidade é determinada por suas experiências pessoais, como as características de sua família e de sua comunidade, a sua religião e/ou instituição religiosa que frequenta, o contato que tem com os meios digitais etc. O espaço escolar, com sua inerente heterogeneidade, possibilita a interação entre essas variantes, a partir do contato que os estudantes têm entre si, com os professores, com a língua que os materiais didáticos apresentam etc.
Nesse sentido, é necessário que a mediação docente ocorra de forma a favorecer a ampliação das experiências dos estudantes com as variações linguísticas, promovendo a identificação das diferenças, ao mesmo tempo em que incentiva à compreensão da naturalidade dessa característica da língua. Ao analisar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a variação linguística é tomada como um objeto de conhecimento, dentro do eixo Oralidade e Análise linguística, a ser trabalhado desde o 3º ao 5º ano. A BNCC reconhece a importância, nesse momento introdutório, de apresentar aos(às) alunos(as) as variações linguísticas ao indicar como habilidade:
(EF35LP11) Ouvir gravações, canções, textos falados em diferentes variedades linguísticas, identificando características regionais, urbanas e rurais da fala e respeitando as diversas variedades linguísticas como características do uso da língua por diferentes grupos regionais ou diferentes culturas locais, rejeitando preconceitos linguísticos. (BRASIL, 2018, p. 111)
Constatamos, portanto, que é a partir do conhecimento da diversidade e da compreensão de sua normalidade que o respeito pode ser trabalhado e conquistado.
Alternativas para Explorar a Variação Linguística em Aulas
Pensando em contribuir para o enriquecimento de sua ação pedagógica, trazemos como ferramenta o site Radio Garden, RFM – Radio Garden, que permite escutar estações de rádio de todo o mundo e ter contato com a oralidade de diversas regiões. Ao trabalhar com programas locais das rádios brasileiras, é possível percebermos, nas variedades expressas, características mais próximas dos usos cotidianos, sem as pronúncias estigmatizadas mais presentes nos filmes ou nas novelas. É possível trabalhar, ainda, as diferenças existentes entre os usos do Português no mundo, com o Português falado no Brasil em relação ao Português Europeu ou dos países africanos (Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe).
Radio Garden: uma alternativa para o trabalho com variação linguística em sala de aula.
Temos como possibilidade, também, o trabalho com músicas. A apresentação de músicas antigas em comparação com músicas mais atuais permite explorar as diferenças da língua em uso ao longo do tempo. Além disso, é possível explorar as variações a partir da realidade dos(as) alunos(as), como quando há pessoas de estados diferentes no próprio âmbito escolar ou familiar, levando-os à compreensão de que não existe apenas um único modo de se expressar com exemplos próximos a eles, materializando o conteúdo na perspectiva da variação regional.
Entender que as variações na Língua Portuguesa não é uma característica negativa e que elas existem há todo tempo em nosso cotidiano é um passo importante a ser dado para que possamos educar crianças que valorizem essa diversidade e promovam a inclusão, o respeito e a solidariedade entre as diferentes culturas, desenvolvendo o pensamento crítico da necessidade de combater o preconceito linguístico.
Estamos juntos e juntas nesse desafio!
REFERÊNCIAS:
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: 2018.
LIMA, Ricardo. Língua é um sistema vivo e dinâmico: mudanças na sociedade se refletem na linguagem falada e escrita. Rede Globo. 23 fev. 2012. Disponível em: < https://glo.bo/3fCVhkJ > Acesso em: 11 mai. 2021.
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