domingo, 4 de abril de 2021

Assim como nós, a língua é viva: variação linguística



Por Débora Letícia de Oliveira (UFPE- Pedagogia, 6º período) e Rebeca Dias da Silva Santos (UFPE- Pedagogia, 6º período)

Que tal refletir e analisar como os livros didáticos estão abordando a variação linguística?

Faremos um relato reflexivo sobre um material didático do 4º ano dos anos iniciais no ensino fundamental, atualizado pela BNCC 2020, que possibilitará ter uma visualização de como as obras estão abordando a variação linguística, tendo como fundamentos as habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular.

Tomamos como base dessa análise a habilidade EF35LP11 da BNCC que prevê a importância de compreender através de múltiplos recursos as diferentes variedades linguísticas, buscando perceber e respeitar as particularidades regionais e culturais, negando qualquer forma de preconceito linguístico.

A variação linguística propicia a diversificação da estrutura da língua em seus pontos característicos, podendo ter alterações na pronúncia, sintaxe, morfologia e vocabulário, a diferenciação está dentro do próprio sistema linguístico.

Essa mudança acontece pela língua ser um fenômeno vivo e, como qualquer ser vivo, está em constante movimento, desenvolvimento e adaptação. Nesse caso, o fenômeno linguístico tem influência do meio social, contexto histórico e geográfico, gênero, faixa etária e o estilo próprio que o indivíduo prefere se expressar.

A variação linguística tem diferentes normas e é fundamental que nenhuma delas seja dita como errada e marginalizada. É considerando isso que devemos sempre analisar em qual contexto está ocorrendo a comunicação.

Como podemos perceber, esse fenômeno é inerente à língua, então ele é sempre considerado quando os professores trabalham com textos, independente do tipo, podendo abordar diferentes possibilidades, como: sociais, históricas, regionais, estilísticas e outras inúmeras.

Nós somos o que falamos?

Acreditamos que o nosso jeito de nos expressar faz parte da nossa identidade, seja visual ou oral. A nossa fala diz muito das nossas raízes, cultura, grupos que fazemos, representando uma parte do que somos.

Há um capítulo dedicado para trabalhar a variação linguística em suas diferentes áreas e a reflexão sobre as problemáticas sociais acerca do tema. O capítulo que aborda a temática é o “Somos o que falamos!”, ele começa destacando que o Brasil é um país com diferentes regiões, sotaques e culturas e, em seguida, levanta o questionamento se a língua falada pela população é realmente o português, tendo como objetivo reflexão e resposta conforme as questões sejam realizadas.

As primeiras questões são referentes ao texto “Pechada” do autor Luis Fernando Verissimo, para ter acesso ao texto clique aqui, que traz em seu cenário uma sala de aula, onde os alunos e, principalmente, um chamado de “gordo Jorge” estranharam e questionaram sobre a forma de falar de Rodrigo, aluno nascido no Rio Grande do Sul.

Notamos que a obra procurou levantar questões que fizessem o aluno refletir sobre os diferentes formas de falar de acordo com a região , podendo ter como exemplo: “O que os colegas mais estranharam em Rodrigo?”, “Onde fica a escola de Rodrigo: Rio Grande do Sul ou outro estado?”, “O gordo Jorge era o que mais insistia em rir e debochar de Rodrigo. Por que?”, “Como a professora descobriu o sentido da palavra “pechar?”.

A partir dessas perguntas, o professor consegue trabalhar a reflexão do conceito de identidade regional e percepção de espaço, estimular o conhecimento de que diversos tipos de objeto podem ter diferentes nomes dependendo da região do país.

Analisando outras duas questões, temos: “Porque a professora chamou o aluno de “gaúcho” e, em seguida, se corrigiu?” e “Você acha justo uma pessoa receber gozação de outra por falar de modo diferente?”. Elas dão uma excelente abertura para discutir sobre a necessidade de se colocar no lugar do outro e se corrigir quando errar, a importância de respeitar as diferenças, entender que ninguém deve ser taxado ou segregado por vir de um espaço diferente, pois ao contrário disso resulta em preconceito linguístico.

Sabemos que os livros de gramática e os dicionários são importantes, mas não podem ser a base para a língua toda, considerando que há diferentes variantes ativas na comunicação. Assim, a linguagem não é estável e imutável.

É muito comum que livros didáticos peçam que o aluno identifique expressões regionais e coloque-as na norma-padrão, alimentando o estereótipo de marginalização dos outros tipos de norma. Contudo, o livro analisado não seguiu esse caminho, objetivando mostrar a importância das variantes.

Com isso, compreendemos que a norma culta também é uma variante da variação linguística e é fundamental ter domínio dela em alguns contextos, mas é importante, também, compreender o valor das diferentes normas.

Marcas linguísticas e linguagem informal

O livro traz identificadas as marcas linguísticas dos personagens, sendo questionado da seguinte forma: “A professora ensina à classe que, apesar de o país inteiro falar português, existem variações na língua. Que palavras a professora provavelmente usaria no lugar de tu, sinaleira e auto?”.

Nesta análise, as palavras em destaque devem ser transcritas pelos estudantes para o modo falado na região indicada, possibilitando a observação das variações linguísticas de determinados locais e contextos sociais, contudo esse método é pouco abrangente e sem grande reflexão da variação linguística.

A importância da linguagem informal e seus efeitos linguísticos também é analisada no livro didático, como exemplo: “As expressões panaca, quebrar a cara, sopapo e tapão revelam que a personagem é: a)calma e educada, b)agressiva e violenta, c)simpática e carinhosa, d)triste e deprimida”, através dessas alternativas pede-se que seja verificada as emoções sentidas pelo personagem.

Com a naturalidade trazida pela linguagem informal e a não preocupação com a linguagem culta, há uma facilitação do entendimento para o leitor a respeito do que os personagens estão sentindo na cena ilustrada abaixo.




A linguagem coloquial usada em determinados momentos contribui para o entendimento de emoções e traz uma maior familiaridade, facilitando a contextualização e interpretação da leitura.

Podemos destacar que nessa questão o livro utilizou a variação linguística social, já que ocorreu diferentes modos de se comunicar com predominância do uso de gírias de acordo com os hábitos e cultura vivenciados pelos personagens.

Ainda nesse quesito da tirinha de OZZY, é pedido ao aluno que ele classifique as expressões em norma-padrão, linguagem formal, linguagem informal ou linguagem culta.

Estas classificações, assim como as demais questões trazidas pelo livro em questão, abordam reflexões superficiais a respeito da variação linguística, sendo necessárias estratégias pedagógicas que proporcionem uma maior abrangência do tema.




A partir da análise da tirinha acima, o aluno deverá dizer se a linguagem é adequada, considerando o conhecimento da linguagem coloquial e o contexto em que foi usada. Em seguida, pede-se para o professor reforçar que a linguagem foi escolhida corretamente por se tratar de jovens conversando num ambiente sem necessidade de formalidade.

Compreendemos que esse tipo de questão auxilia na visualização do aluno, mas é importante que o professor faça junto com a turma uma reflexão mais profunda, indo além do contexto social e considerando as diferentes formas do uso da língua.

Você costuma refletir os temas propostos com seus alunos?




O uso da linguagem formal é analisada de maneira menos presente em relação a informal, através do texto “Fósforo” de Marcelo Duarte, do livro didático em análise, é possível identificar seu uso através da questão em que se pede para identificar o seu emprego e como é caracterizada; esse tipo de consulta é necessária para que ocorra reconhecimento da escrita dentro de sua normalidade e os contextos que devem ser utilizados.

É importante que os professores façam citações dos locais onde a linguagem formal se apresenta e encaixa da melhor forma. A partir dessas discussões e atividades, os alunos podem desenvolver a percepção das diferentes variedades linguísticas e de quando aplicá-las em diferentes situações.

Entendemos que o material didático deve auxiliar e incentivar o aluno na sua conscientização sobre a variedade linguística e em como ela está presente na vida de todos nós.

Assim como analisamos esse material didático buscando na habilidade EF35LP11 da BNCC, é fundamental que você, professor, faça o mesmo com o livro que está trabalhando na sala, pois a partir de uma reflexão crítica, é possível ver quais pontos e questões devem ser trabalhadas por outros recursos e quais debates devem ser levantados e aprofundados.

Diante do que expomos, como você está enxergando a funcionalidade do seu material didático a respeito da variação linguística? Adoraríamos saber!


Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.

CARNEIRO, Vera. Diversidade Linguística: Variação Linguística e Práticas Pedagógicas. ENTRELETRAS, Araguaína/TO, v. 5, n. 2, p. 102-111, ago./dez. 2014.





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