quarta-feira, 31 de março de 2021

O Poema e a Geração Alpha: Declamar poemas utilizando as redes sociais.

Por Raíza Félix (UFPE-Pedagogia, 5º período) e Tamirys Melo (UFPE-Pedagogia, 5º período).


Uma habilidade da BNCC que, às vezes, pode passar despercebida ou muitos professores veem dificuldade ao trabalhar dentro da sala de aula, é a habilidade (EF35LP28) que visa declamar poemas, com entonação, postura e interpretação adequadas


Voltada para 3º, 4º e 5º anos, a abordagem dessa habilidade, por diversas vezes, pode parecer extremamente desafiadora, principalmente no que diz respeito a encontrar material base adequado para alunos dessa faixa etária. Poemas que apresentam um vocabulário não tão rebuscado a ponto de ser totalmente indecifrável pelas crianças, mas ao mesmo tempo que não seja simplório demais a ponto de não as desafiar. E além disso, tem-se também o como levar para a sala de aula. O gênero literário, poema, por si só, já carrega certa estigma de ser indecifrável e, por vezes, até inalcançável, diga-se de passagem. 


Muitos se apegam à característica subjetiva do poema, que funciona como uma hidra de sete cabeças em que, cada vez que cortamos uma cabeça, surgem outras duas ainda mais ferozes e inteligentes que a anterior. Cada releitura mostra uma nova forma de interpretação. Peca-se, no entanto, ao esquecer-se a vasta gama de tipos e formas de poemas, o que acaba se tornando um fato limitante na abordagem destes em sala de aula, onde por vezes, não se sabe que poemas trazer para sala de forma de forma a abordar o tema de forma leve e dinâmica, que desperte o interesse e engajamento dos alunos.


Quando se supera a dificuldade de achar um material com linguagem acessível à faixa etária com que se está trabalhando, o foco geralmente recai na leitura, na produção textual e, principalmente, na análise linguística, esquecendo-se de trabalhar a oralidade dos poemas. Não estamos falando que as outras práticas linguísticas tenham menos ou mais importância, mas é necessário buscar refletir sobre o trabalho da oralização dos poemas, que por diversas vezes, só é trabalhado na memorização de um texto para as datas comemorativas, por exemplo. 


O texto artístico-literário transmite sentimentos. Ele conta uma história, e isso também deve ser trabalhado no cotidiano escolar. É preciso refletir sobre como transmitir essa história e os sentimentos do texto: Será que apenas ler é o suficiente para que essa ideia seja transmitida? Declamar um poema parado e um poema movimentando o meu corpo faz alguma diferença para quem a assiste?


Neste sentido, salientamos que trabalhar a leitura e oralidade dos alunos e das alunas são perspectivas distintas. Por exemplo, para declamar um poema não se pode simplesmente ler o que está ali posto. É preciso entonação, um ritmo para que o texto ganhe vida e o sentimento seja transmitido aos que escutam. Em resumo, o que estamos tentando dizer é que, através da oralidade podemos trabalhar a linguagem corporal deste aluno, a entonação da sua voz, a representatividade dos sentimentos, algo que apenas a leitura não nos permite. É preciso tornar a sala de aula um palco de experiências, confortável o suficiente para que ele se sinta à vontade para falar e participar. 


Vejamos um exemplo prático, leia a transposição do poema “Está-se a dar assento a um ser para a alegria dos bem-amados”.  A narrativa foi escrita em língua Mbya Guarani, logo este é a transcriação na concepção de Haroldo de Campos.



Está-se a dar assento a um ser para a alegria dos bem-amados


Quando está por tomar assento em ser que alegrará 

os que levam a marca do masculino 

ou a marca do feminino, 

envia à terra uma palavra-alma boa para que encarne, 

disse nosso Pai Primeiro aos verdadeiros 

pais das palavras-almas filhas


Desdobrarás enviando palavras-almas boas 

para que encarnem, 

e quando elas se tornarem forma aconselhas discretamente: 

‘Irás bem, filhinho do Grande Espírito, 

Considera com fortaleza a morada terrena 

e, mesmo que todas as coisas, em sua diversidade, 

apresentarem-se por vezes horrorosas, 

deves enfrentá-las com valentia’. 


Quando enviam criaturas a nós, 

aqueles que se situam acima de nós dizem: 

“Irás à terra.” 

“Recordarás de mim em teu coração. 

Assim eu farei que circule minha palavra 

por haveres acordado a mim. 


Assim eu farei que pronunciem 

palavras aos inumeráveis 

e excelsos filhos que abarco.  


Falar será vosso valor, calar será o mais alto. 

O valor poderá ter a faculdade de conjurar malefícios 

mas não dominarás, em toda a extensão da terra, 

a quem tentar sobrepor os inumeráveis filhos que eu abarco, 

com parcos valores. 


Por isso tu, enquanto habitares a terra, 

de minha morada formosa haverás de recordar-te. 

Eu inspiro palavras formosas em teu coração, 

de modo que não podes igualar-te 

às imperfeições da morada terrena.”


Para nascer uma criança 

o Grande Espírito, Jakaira Ru Ete, Karaí Ru Ete 

discorreram essas orações sagradas sobre a morada terrena 

com aqueles que haviam provido de palavra. 

Desdobraram esquadrinhando almas, 

tecendo aqueles que seriam futuros pais e mães. 


Então os Seres-Trovões disseram: 

“Nós e nossos filhos seremos revolvidos pela Terra 

e nesse revolver proveremos palavras em pé pelo chão. 

Sons andantes cantarão vidas, cada qual seu tom.” 

                                                                    ( Kaka Werá Jecupé)


Fonte: Júnior, Milton Sgambatti. Poética Indígena: um ensaio sobre as origens da poesia.



O poema se trata da narrativa Tupã Tenondé: A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani, de Kaka Werá Jecupé. Quando você leu, quais sentimentos sentiu? O que ele queria passar no poema? Conhecia todas as palavras? Como declararia para outra pessoa? Sua voz transmitiria quais sentimentos? Quais seriam seus gestos? Estas são algumas das reflexões que precisam ser pensadas ao trabalhar a habilidade (EF35LP28), que fala sobre a importância de trabalhar a declamação de poemas, com entonação, postura e interpretação adequadas. Como professores multidisciplinares, também precisamos trabalhar com as múltiplas linguagens, de forma que todas as áreas da linguagem sejam oferecidas. 


Em meio a todo este processo de reflexão, ainda é preciso vencer o desafio de como fazê-lo de forma interessante e engajadora. 


O ser humano tem a tendência natural de se agrupar em redes com aqueles que julga semelhantes e/ou tem interesses em comum para a partir daí estabelecer relações de trabalho, amizade ou amorosa, que se desenvolvem e se modificam com o passar do tempo e assim vai delineando e expandindo sua rede conforme sua inserção no meio social. Neste contexto, o cenário atual predispõe das redes sociais, que funcionam como uma estratégia para o compartilhamento de informações e conhecimento, visando estreitar, manter e expandir essas relações. 


É inegável a influência das redes sociais na vida da Geração Alpha, onde crianças já nasceram conectadas, vivem rodeadas por tecnologia e estão desenvolvendo uma nova visão de mundo a partir da internet. Dentre tantas polêmicas que envolvem este assunto, como os males que a vida paralela que muitos levam no “mundo online” como ansiedade, baixa autoestima e depressão; possam trazer, temos também a forma como estas podem unir pessoas com interesses em comum, ou até despertar a curiosidade acerca de algo jamais explorado. 


Foi a partir dessas premissas que surgiu a ideia de utilizar as redes sociais para abordar poemas, especificamente, através do aplicativo Tiktok, tão popular atualmente entre alunos e alunas das idades trabalhadas. Grande parte dos estudantes são familiarizados com esta ferramenta e em gravar stories que relatam coisas cotidianas da sua vida, memes, curiosidades ou até mesmo notícias. Essa familiaridade com o aplicativo faz com que eles estejam  muito mais predispostos a usá-lo, mesmo que seja para um trabalho da escola ao invés de apenas algo relacionado à sua vida pessoal. 


Abaixo é possível ver alguns exemplos de jovens que escolheram a rede social para declamar poemas:



Fonte: Pessoal das escritoras - Camila Cunha.


Fonte: Retirando do Tiktok @mvleme.

Fonte: Retirando do Tiktok @rap.br.


Nos vídeos é possível perceber que a expressividade dos que declamam passa outra forma de interpretação, muito mais impactante que apenas a leitura da forma escrita.  A expressão facial, a entonação, o gesticular, atribuem fatores imprescindíveis para a transmissão do poema. Assim, algumas propostas que podem ser vivenciadas em sala de aula são:


  • Uma exposição de vídeos gravados pelos alunos e alunas declamando poemas de seu interesse. Isso geraria uma dinâmica muito divertida e interessante pois eles poderiam comparar os poemas escolhidos, sugestões relacionadas a postura ao declamar e a entonação, além de mostrar a todos novos poemas;

  • Propor uma gincana poética, onde cada equipe produziria um vídeo declamando poemas com as características especificadas pelo professor utilizando acessórios inusitados. Será criado uma bancada que avaliará postura, criatividade, entonação e a produção audiovisual. Ganha a equipe que obtiver a maior pontuação. Todo processo pode ser gravado e postado nas redes sociais.


E você, o que achou da ideia de trabalhar poemas utilizando redes sociais? Já passou pela sua cabeça utilizar redes sociais em sala de aula? Que poemas você sugeriria para que fossem declamados pelos alunos? Deixe seu comentário! ;))

Nenhum comentário:

Postar um comentário